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Sola Scriptura



Somente a Escritura

“Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.” (João 5.24, 17.17)


Introdução

Um dos problemas que cerca a humanidade é a inabilidade de trilhar com base na verdade e em suas prerrogativas. Obviamente isso se dá por causa do pecado que macula a natureza humana após a Queda, afastando o ser humano do ideal da Criação. Ao mesmo tempo em que nos asseguramos dessa realidade, passamos a viver tempos em que a verdade, antes não vivida, agora ganha novas possibilidades, ou seja, passamos em nosso tempo a conviver com a ideia de que a verdade, que não se quer mais que exista, é, isso sim, um leque de possíveis verdades. Comportamentos, ideias, padrões, e até a fé costumam ser duramente influenciados por questões dessa natureza. Assim como a verdade, crer ou não crer passa a ser algo diferenciado em nossos dias, o que leva muitas pessoas a estabelecer uma forma de crer personalizada e de acordo com seus desejos e suas vontades pessoais.

É exatamente nesse ponto que nosso interesse vem à tona. Na Idade Média também havia problemas que levavam as pessoas a crer da forma errada, ou mesmo nem crer, embora tivessem uma vida com alguns padrões de religiosidade que parecia uma vida de fé. Uma das primeiras coisas que os reformadores detectaram no início do movimento que culminou na Reforma Protestante foi o distanciamento que o cristianismo medieval tinha com relação à Escritura Sagrada, facultando o surgimento de elementos estranhos à fé cristã no meio da Igreja. O profeta Oseias, um pouco mais de 2200 anos da Reforma (cerca de 720 aC), tinha falado a respeito disso ao dizer “o meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento” (Os 4.6a, em que a advertência recai diretamente sobre o fato de que falta de conhecimento gera destruição espiritual. Sabemos, pela própria Palavra de Deus, que isso se refere ao conhecimento de Deus, que é revelado na Escritura Sagrada. Dessa forma, estimulados por Deus, os reformadores concluíram que um dos primeiros passos para os acertos necessários na Igreja seria o retorno à Escritura, mas não um retorno parcial ou apenas reinterpretado: teria que ser um retorno que restaurasse à Escritura o seu papel e sua função original, da qual jamais deveria ter sido retirada. Teria que ser um retorno de tal forma que toda a fé se baseasse exclusivamente e somente na Escritura. Por essa razão temos a máxima da Reforma: Sola Scriptura, uma expressão latina que quer dizer “somente a Escritura”.


Desenvolvimento

Em nossos dias estamos diante de padrões diferentes daqueles da Escritura, e a sociedade que nos cerca, que insiste em se chamar de laica, é, em verdade, uma sociedade de oposição a praticamente tudo que a Escritura afirma como sendo verdadeiro. Como filhos de Deus, particularmente herdeiros da Reforma, precisamos trabalhar nossos corações e mentes a partir do fato de que somente a Escritura nos traz a absoluta verdade de Deus e que tudo de que precisamos para a nossa vida está contida de forma expressa ou de imediata interpretação nas páginas da Bíblia, como aprendemos em nossos símbolos de fé: “Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens; reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas na palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comum às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da palavra, que sempre devem ser observadas.”[1] Dessa forma, cabe-nos olhar em direção à Escritura Sagrada sob dois aspectos imediatos: ela é a verdade expressa de Deus revelada por meio da inspiração aos autores sagrados e somente a esse texto devemos seguir como regra de fé e prática, como lemos em que sob “o nome de Escritura Sagrada, ou Palavra de Deus escrita, incluem-se agora todos os livros do Velho e do Novo Testamento, que são os seguintes, todos dados por inspiração de Deus para serem a regra de fé e de prática” [2], ao que segue a relação dos 66 livros canônicos do Antigo e do Novo Testamento conforme reconhecidos pela tradição reformada e evangélica.

Mas como poderemos compreender e rejeitar todas as oposições que nos trazem de fora do ambiente da comunidade de fé, aquelas que minimizam ou eliminam o valor e a veracidade da Escritura? Para isso, é necessário que compreendamos que a Escritura é a nossa maior autoridade, e que somente as coisas ali contidas serão nosso guia seguro até o final de nossas vidas. É esse o contexto em que afirmamos que a Escritura Sagrada é a nossa única regra de fé e prática. Numa das edições da Revista Ultimato de 2013, lemos que “O ato de crer envolve regras; ele sempre nos coloca, por exemplo, em uma relação de dependência emocional em relação àquilo no que cremos, de modo que quando as expectativas de confiança são frustradas, a sensação de desamparo é profunda.”[3] E completa seu pensamento dizendo que:

As Escrituras Cristãs são a “regra de fé e prática” para os Cristãos protestantes porque literalmente regulam o modo como a nossa confiança em Deus deve se expressar. Os cristãos entendem que a revelação de Deus deve governar o nosso modo de se aproximar dele por uma razão óbvia: nossa confiança em qualquer pessoa (e isso inclui a pessoa de Deus) se fundamenta naquilo que conhecemos sobre essa pessoa, e na palavra que ela nos dá. A confiança é uma resposta que ocorre dentro de um ato de comunicação pessoal, no qual o que ouvimos do outro passa a representar de forma suficiente tudo aquilo que não sabemos mas não temos como verificar. A face e a voz do outro se tornam para nós a evidência suficiente do que precisamos saber.[4]

Com isso queremos dizer que não há meios alternativos para chegarmos à verdade: somente a Bíblia expressa tudo que precisamos para nossa caminhada. De outra forma, ficaremos sujeitos ao sabor das normas culturais e sociais, das tradições de conduta pública e até de performances de moralidade que podem se chocar com aquilo que nosso Deus deseja para nós como o melhor caminho para a nossa jornada com ele. Imaginemos como seriam nossos julgamentos diante de novidades, como questões de gênero, aborto, eutanásia, e tantas outras questões complexas que dia a dia surgem diante de nós: se nos basearmos somente na Escritura, nossa postura será aquela que ali aprendemos. Caso contrário, se a virmos apenas como mais um acessório em nossas tomadas de decisão, provavelmente nós seremos conduzidos pelas instabilidades do pensamento humano, sendo facilmente levados por qualquer vento de doutrina. Foi exatamente para nos educar na verdade e nos resguardar do mundo que Deus concedeu os ministérios docentes à Igreja, como disse Paulo à Igreja de Éfeso.[5] Aliás, muito tempo antes, o profeta Isaías já nos advertia do perigo que enfrentamos ao acharmos que nossos caminhos e nossa justiça nos bastam: “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como um vento, nos arrebatam.” (Is 64.6).

A Escritura tem algumas características que a tornam tão especial e singular. Segundo Wayne Grudem, as principais são[6]:

· A Escritura é totalmente inerrante. Isso quer dizer que os autógrafos originais da Bíblia não contém erros ou desvios que precisem ser reformulados. Da mesma forma, quaisquer problemas que encontremos em alguma tradução ou versão poderão ser resolvidos a partir de cotejamento com esses autógrafos;

· A Escritura é totalmente clara. Isso quer dizer que não há texto impossível de ser compreendido na Bíblia. Ocorre, no entanto, que o obscurecimento da mente pelo pecado torna o homem incapaz de compreender a verdade a partir de uma simples leitura, razão pela qual contamos com a agência do Espírito Santo nos trazendo iluminação sobre o texto;

· A Escritura é totalmente necessária. Isso quer dizer que sem a revelação da Escritura não há possibilidade de conhecermos a verdade de Deus, principalmente aquela que trata do conhecimento do Evangelho para a salvação;

· A Escritura é totalmente suficiente. Isso quer dizer que na Escritura encontramos absolutamente tudo de que precisamos para o conhecimento de Deus e do Evangelho, bem como para obtermos todas as respostas para uma vida cristã sóbria ao lado de nosso Senhor e Mestre.

Não nos esqueçamos que isso se refere à forma escrita da Palavra de Deus, pois somente assim estaremos prevenidos de desvios feitos por palavras trazidas a nós em nome de Deus. Escritura em sua forma escrita é a nossa autoridade final em todos os assuntos.


Conclusão

Cristãos de todos os tempos têm lutado contra as ameaças e ataques à fé genuinamente cristã. Ao longo dos tempos, no entanto, Deus tem levantado seus filhos fieis para nos educarem e guiarem no caminho da Escritura Sagrada. Mais recentemente, a Declaração de Cambridge, de 1996, apresenta uma série de cuidados que a igreja da atualidade precisa ter, além de nos alertar e endereçar novamente para o caminho da Bíblia. Nesses documentos, Deus usou particularmente os pastores James Montgomery Boice e Michael Horton, ambos ministros reformados, a fim de deixarem o alerta à posteridade.

Não podemos descuidar de nossa fé. A maior preciosidade que temos em nossa peregrinação é o conjunto de convicções que a Escritura nos deixa como legado, o que deve ser preservado com todo vigor, sabendo que o Senhor mesmo nos dá as condições necessárias para a observação de sua lei, aquilo que está nas páginas da Escritura. Por isso, deixemos em nosso coração as palavras do salmista: “Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo o dia! Os teus mandamentos me fazem mais sábio que os meus inimigos; porque, aqueles, eu os tenho sempre comigo. Compreendo mais do que todos os meus mestres, porque medito nos teus testemunhos. Sou mais prudente que os idosos, porque guardo os teus preceitos.” (Salmo 119:97-100)

Excerto da Declaração de Cambridge sobre o Sola Scriptura[7]


SOLA SCRIPTURA: A Erosão da Autoridade


Só a Escritura é a regra inerrante da vida da igreja, mas a igreja evangélica atual fez separação entre a Escritura e sua função oficial. Na prática, a igreja é guiada, por vezes demais, pela cultura. Técnicas terapêuticas, estratégias de marketing, e o ritmo do mundo de entretenimento muitas vezes tem mais voz naquilo que a igreja quer, em como funciona, e no que oferece, do que a Palavra de Deus. Os pastores negligenciam a supervisão do culto, que lhes compete, inclusive o conteúdo doutrinário da música. À medida que a autoridade bíblica foi abandonada na prática, que suas verdades se enfraqueceram na consciência cristã, e que suas doutrinas perderam sua proeminência, a igreja foi cada vez mais esvaziada de sua integridade, autoridade moral e discernimento.

Em lugar de adaptar a fé cristã para satisfazer as necessidades sentidas dos consumidores, devemos proclamar a Lei como medida única da justiça verdadeira, e o evangelho como a única proclamação da verdade salvadora. A verdade bíblica é indispensável para a compreensão, o desvelo e a disciplina da igreja.

A Escritura deve nos levar além de nossas necessidades percebidas para nossas necessidades reais, e libertar-nos do hábito de nos enxergar por meio das imagens sedutoras, clichês, promessas e prioridades da cultura massificada. É só à luz da verdade de Deus que nós nos entendemos corretamente e abrimos os olhos para a provisão de Deus para a nossa sociedade. A Bíblia, portanto, precisa ser ensinada e pregada na igreja. Os sermões precisam ser exposições da Bíblia e de seus ensino, não a expressão de opinião ou de idéias da época. Não devemos aceitar menos do que aquilo que Deus nos tem dado.

A obra do Espírito Santo na experiência pessoal não pode ser desvinculada da Escritura. O Espírito não fala em formas que independem da Escritura. À parte da Escritura nunca teríamos conhecido a graça de Deus em Cristo. A Palavra bíblica, e não a experiência espiritual, é o teste da verdade.


Tese 1: Sola Scriptura


Reafirmamos a Escritura inerrante como fonte única de revelação divina escrita, única para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado.


Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação.

Dicas de Bibliografia


BERKHOF, L. (2012). Teologia Sistemática (4ª Revisada ed.). (O. Olivetti, Trad.) São Paulo, SP, Brasil: Cultura Cristã.

GOODSPEED, E. J. (1981). Como nos veio a Bíblia. (B. P. Bittencourt, Trad.) São Bernardo do Campo, SP, Brasil: Imprensa Metodista.

GRUDEM, W. A. (1999). Teologia Sistemática. (V. tradutores, Trad.) São Paulo, SP, Brasil: Vida Nova.

HYDE, D. R. (2010). Welcome to a Reformed Church: a guide for pilgrims. Lake Mary, FL, USA: Reformation Trust Publishing.

LOPES, A. N. (2004). A Bíblia e seus intérpretes: uma breve história da interpretação. São Paulo, SP, Brasil: Cultura Cristã.

SPROUL, R. C. (2003). O conhecimento das Escrituras. (H. C. Martins, Trad.) São Paulo, SP, Brasil: Cultura Cristã.


Referências:

[1]Confissão de Fé de Westminster, I, VI [2]Ibidem, I,II [3] Disponível em http://ultimato.com.br/sites/guilhermedecarvalho/2013/03/20/a-regra-da-fe [4]Idem [5] E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. Ef 4.11-14 [6]GRUDEM, W. A. Teologia Sistemática. pp. 21-94. [7] http://www.monergismo.com/textos/credos/declaracao_cambridge.htm http://www.alliancenet.org/cambridge-declaration.

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