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Sola Gratia



Somente a Graça

“Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” (Efésios 2.4-10)


Introdução

Aí está uma das grandes dificuldades que o homem tem: exatamente a de aceitar que alguém pode fazer algo de muito bom sem interesses secundários. Fazer o bem simplesmente por fazer o bem. Todos ficamos naturalmente desconfiados quando vemos “bondade demais”, e lá no fundo achamos que há alguma coisa por detrás de demonstrações de boas ações sem aparente interesse. Isso se espelha em Deus: quando começamos a entender que a salvação é algo efetuado pela graça – e somente por ela – isso nos causa um espanto e uma incredulidade natural e, não fosse a iluminação do Espírito Santo, ninguém conseguiria acreditaria na salvação como é proposta na Escritura.

A Revista Progress Magazine, em sua edição de dezembro de 1992, conta que o evangelista Billy Graham certa vez cruzou dirigindo uma pequena vila ao sul do país, quando foi parado por um policial por excesso de velocidade. Foi conduzido até a presença de um juiz, que lhe perguntou se ele se declarava culpado ou não pela infração. Graham respondeu que sim, era culpado, e ouviu a sentença: U$10 sendo U$1 para cada milha acima do limite permitido. Foi quando o juiz reconheceu o famoso pregador e lhe disse que a multa estava de pé, mas que ele próprio, o juiz, a pagaria. O magistrado pegou a carteira, tirou uma nota de U$10 e a anexou ao boleto de pagamento. Em seguida, convidou Billy Graham para almoçar com ele. Depois de tudo, o pregador disse “é assim que Deus trata pecadores arrependidos”. É assim que opera a graça de Deus: somos culpados, o juiz declara a penalidade, mas ele resolve pagar a dívida por nós.


Desenvolvimento

Todas as expressões de fé pensam na salvação de algum modo. Sempre se pensa no que vem depois da morte, o que faz com que as pessoas tenham se voltado geração após geração a buscar as respostas transcendentes para a vida e a morte. Nesse ponto entra a questão do porvir, o que se relaciona diretamente com a salvação em algum grau e forma. As religiões pensam nisso por dois caminhos: a pessoa pode ser salva por seus próprios méritos ou pela graça. Isso quer dizer que os méritos para a salvação ou são pessoais ou de Deus. O cristianismo entende que a salvação depende exclusivamente de Deus. Os cristãos reformados, como nós, presbiterianos, crêem que a salvação é algo tão exclusivo de Deus que ele nos salva pelos atos dele, sem a nossa ajuda, o que chamamos de monergismo. Há irmãos que crêem numa parcela de ajuda do ser humano, embora a salvação seja sempre efetuada por Deus, ao que chamamos de sinergismo. Mas o que está na base de todo o pensamento cristão, seja monergista ou sinergista, é que a salvação ocorre por graça, ou seja, é algo que não fazia parte dos merecimentos humanos e que Deus o faz porque quer fazê-lo, dando-nos gratuitamente o dom que conduz à redenção e isso tem uma razão: para que a glória permaneça para Deus e não a ponhamos sobre nós (cf. Efésios 2.8).

Com isso aprendemos que a causa eficiente pela qual somos salvos é unicamente a graça de Deus, o que tira a possibilidade de salvação por outros meios ou outras divindades. Menos ainda as obras que possamos produzir, por boas e lícitas que sejam. Em outras palavras, entendemos pela Escritura que as obras que agradam a Deus são a conseqüência de sermos salvos e transformados, de tal sorte que as nossas ações e atitudes glorifiquem a Deus. Aqueles que crêem que as obras podem salvar ou mesmo colaborar com a salvação estão, em alguma medida, mesmo que sem querer, considerando comprar o favor de Deus. Paulo nos deixa isso muito claro em Romanos 11.6[1].

De fato, a graça perpassa todo o processo de nossa salvação. Vejamos que a própria eleição é pela graça, como está escrito para nós também por Paulo, ao dizer que assim “pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça.”[2], o que está confirmado pela Confissão de Fé de Westminster:

Segundo o seu eterno e imutável propósito e segundo o santo conselho e beneplácito da sua vontade, Deus antes que fosse o mundo criado, escolheu em Cristo para a glória eterna os homens que são predestinados para a vida; para o louvor da sua gloriosa graça, ele os escolheu de sua mera e livre graça e amor, e não por previsão de fé, ou de boas obras e perseverança nelas, ou de qualquer outra coisa na criatura que a isso o movesse, como condição ou causa.[3]

Da mesma forma, no processo da salvação, a justificação e o perdão de nossos pecados são fruto da graça de Deus, como vemos em Romanos 3.24[4] e Efésios 1.7[5], este último referindo-se ao Amado (Jesus Cristo). É nessa graça maravilhosa que estamos firmes até o final (cf. Romanos 5.2[6]). A CFW continua nos dizendo muito:

Todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espírito, tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça.[7]

Por causa dela somos conduzidos a perseverar até aquele dia em que estaremos diante do Senhor para todo o sempre. Para tal, a nossa caminhada deve ser uma jornada de crescimento, o que também é envolto na graça de Deus, como Pedro nos diz: “crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo[8]” e é por causa dessa mesma graça que seremos conduzidos em segurança até a revelação plena de nossa salvação[9]. Aqui também temos a confirmação de nosso símbolo de fé ao lermos que “Os que Deus aceitou em seu Bem-amado, os que ele chamou eficazmente e santificou pelo seu Espírito, não podem decair do estado da graça, nem total, nem finalmente; mas, com toda a certeza hão de perseverar nesse estado até o fim e serão eternamente salvos.”[10]

Ora, pela graça Deus nos elegeu, chamou, salvou, nos faz perseverar e nos fará chegar até ao final de nossa caminhada, preservados no Senhor para honra e glória de seu próprio nome.


Conclusão

O que diremos então? Podemos fazer alguma coisa de nós mesmos que nos permita ser salvos, perseverar, chegar à glória eterna? Não! Tudo está pautado na graça imerecida, naquele favor que vem de Deus e nos abraça a ponto de sermos cheios da certeza plena de nossa pequenez por um lado e, por outro, da imensidão do Deus todo-poderoso que nos escolheu e nos salvou. Sola Gratia é uma das mais preciosas doutrinas da fé cristã na forma como os cristãos reformados a entendem. A graça de Deus como único elemento que nos conduz a Cristo e nos abre os olhos para que vejamos a luz sem que nada possamos fazer está na base do amor de Deus pelos eleitos, e isso nos comove o coração. Na leitura da Escritura, mesmo que sejamos novos na fé, perceberemos todo o tempo a graça de Deus trabalhando em favor de seus filhos, mostrando-nos claramente qual é o lugar que a graça ocupa em nossa jornada espiritual.

Há um cântico que já foi muito cantado nas igrejas. Podemos recuperá-lo, pois sua letra nos anima a lembrar sempre de nossa circunstância, bem como daquilo que a graça operou em nosso favor.


Quando terminar esta vida e lá no céu eu chegar

Haverá uma multidão de irmãos

Esperando pra me abraçar, e perguntarão a uma voz

Voltados para mim: Oh conta-nos como você, irmão

Venceu e chegou aqui


E falarei, e contarei de Jesus que me salvou

Que por este pecador a si mesmo se entregou

Foi graça, graça, superabundante graça

Graça, graça, preciosa e doce graça


Foi graça irmão, graça irmão

Eu vos digo que foi assim

Foi só pela graça de Jesus

Que eu venci e cheguei aqui



Excerto da Declaração de Cambridge sobre o Sola Gratia[11]


SOLA GRATIA: A Erosão do Evangelho


A Confiança desmerecida na capacidade humana é um produto da natureza humana decaída. Esta falsa confiança enche hoje o mundo evangélico – desde o evangelho da auto-estima até o evangelho da saúde e da prosperidade, desde aqueles que já transformaram o evangelho num produto vendável e os pecadores em consumidores e aqueles que tratam a fé cristã como verdadeira simplesmente porque funciona. Isso faz calar a doutrina da justificação, a despeito dos compromissos oficiais de nossas igrejas.

A graça de Deus em Cristo não só é necessária como é a única causa eficaz da salvação. Confessamos que os seres humanos nascem espiritualmente mortos e nem mesmo são capazes de cooperar com a graça regeneradora.


Tese 3: Sola Gratia


Reafirmamos que na salvação somos resgatados da ira de Deus unicamente pela sua graça. A obra sobrenatural do Espírito Santo é que nos leva a Cristo, soltando-nos de nossa servidão ao pecado e erguendo-nos da morte espiritual à vida espiritual.


Negamos que a salvação seja em qualquer sentido obra humana. Os métodos, técnicas ou estratégias humanas por si só não podem realizar essa transformação. A fé não é produzida pela nossa natureza não-regenerada.

Dicas de Bibliografia


BERKHOF, L. (2012). Teologia Sistemática (4ª Revisada ed.). (O. Olivetti, Trad.) São Paulo, SP, Brasil: Cultura Cristã.

BOICE, J., & RYKEN, P. (2014). As doutrinas da graça: resgatando o verdadeiro evangelho. (C. CHAGAS, Trad.) Rio de Janeiro, RJ, Brasil: Anno Domini.

FERREIRA, F., & MYATT, A. (2007). Teologia sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo, SP, Brasil: Vida Nova.

GRUDEM, W. A. (1999). Teologia Sistemática. (V. tradutores, Trad.) São Paulo, SP, Brasil: Vida Nova.

HOEKEMA, A. (1997). Salvos pela graça: a doutrina bíblica da salvação. (W. G. MARTINS, Trad.) São Paulo, SP, Brasil: Cultura Cristã.

HORTON, M. S. (2003). As doutrinas da maravilhosa graça. (D. Meister, Trad.) São Paulo, SP, Brasil: Cultura Cristã.

HYDE, D. R. (2010). Welcome to a Reformed Church: a guide for pilgrims. Lake Mary, FL, USA: Reformation Trust Publishing.


Referências

[1] E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça. [2] Romanos 11.5 [3] Confissão de Fé de Westminster, III,V [4] Sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus. [5] No qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça. [6] Por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus. [7] Confissão de Fé de Westminster, X,I [8] 2 Pedro 3.18, trecho [9] Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo. 1 Pedro 1.13 [10] Confissão de Fé de Westminster, XVII,I [11] http://www.monergismo.com/textos/credos/declaracao_cambridge.htm http://www.alliancenet.org/cambridge-declaration.

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